domingo, julho 16, 2006

"Elogio ao amor"

Hoje à tarde, no programa "a revolta dos pastéis de nata", ouvi uma crónica do Miguel Esteves Cardoso que deixo aqui à consideração de quem a leia. Eu sou duvidosa em comentá-la, porque as crónicas do MEC marcaram a minha adolescência. Nessa altura apenas um café na minha terra recebia o jornal Independente, e recebia apenas 5 exemplares. Um para mim, e dos restantes, dois para duas amigas minhas (uma delas, pelo menos, espero que venha aqui fazer-me uma visita). E eu avidamente devorava os textos do MEC.

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível.
A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas, da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado.
Os amantes tornaram-se sócios. Reunem-se, discutem problemas, tomam decisões.
O amor transformou-se numa variante psico-socio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possí­vel.
O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo, de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona?
Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilí­brio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alí­vio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores.
O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo.
O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes.
Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princí­pio, não é um destino.
O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.
O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida.
A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difí­cil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Etiquetas:

17 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Espero que encontre o amor verdadeiro! esse amor que não trai e que cuida, não o amor fingido que vai embora na primeira contradição...

6:50 da tarde  
Blogger Van said...

Estatuto do Homem
(Ato Institucional Permanente)

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

Isso é só pra pensar...agora o que eu acho do post?...do que escreveram?

Só acho que é alguém que não está contente com o amor...
Do amor não se espera nada...qdo criamos expectativas, é qdo nos machucamos.
Pra mim o amor é assim...
Eu choro, eu brigo, tenho ciúmes, aliás MORRO, dou risada, sou pisada, piso e continuo amando e sendo amada...é difícil???
Difícil é viver sem um grande amor...hahahaha
Beijo pra vc e espero que esteja bem!

8:41 da tarde  
Blogger salteadora said...

Também eu vi o programa e achei genial o texto. Pensei que teria que vir à net pesquisar para encontrá-lo. Por acaso, ou talvez não, encontrei-o aqui. Vou, também, divulgá-lo pois como diz o grande Eugénio de Andrade, é urgente o amor.

9:48 da tarde  
Blogger Aran_aran said...

Olá! Obrigada pela visita ao meu cantinho. Eu já conhecia o texto... e ao relê-lo... fez-me aperceber de algo... que faço parte de uma minoria em extinção!!!! ;) Beijinhos e inté

10:07 da tarde  
Blogger GNM said...

É uma grande crónica!

"Os homens dominam as paixões
em vez de se deixarem dominar
por elas" Já Nietzche escrevia.

Na vida tudo se reconduz ao Amor,
o resto é paisagem... é puramente
acessório!

Beijinhos...

10:34 da tarde  
Blogger Rui Pinheiro said...

Só posso concordar com esta banalização do amor, descrita pelo MEC. Um tema que cheguei a comentar contigo, acho!
O facto de ser visível a não existência de amor entre um casal, e essa união apenas existir por outros factores, bem estar económico, boa impressão na sociedade, entre outras...

Apenas realçar a menção no texto ao "casal".
Não é apenas a mulher ou o homem que deve lutar pela sua verdadeira paixão.

Mas se existe esta banalização do amor, existe também outro problema na nossa sociedade, qye também julgo importante: a falta de tempo.

Com esta quantidade de informação que hoje em dia os nossos amigos nos obrigam a assimilar, não há tempo por mais que se queira!
Só deixando um dia de ir trabalhar por exemplo... e deixar de ocupar o nosso tempo no que a sociedade nos obriga, e sim no que entendemos importante e nos dá mais prazer.

É que, pela primeira vez, pude parar no teu blog e comentar.

Mas não seria melhor, enviares um mail personalizado a um amigo teu e falar directamente com ele sobre qualquer assunto, como por exemplo este?

Ou quando vens à "terra dos cinco Independentes", arranjar tempo para beber um café, por cinco minutos com um amigo?

Ou amizade é enviar chain letters pelo mail?

12:21 da manhã  
Anonymous sensualidade de mulher said...

Ola,

Primeiro kero agradecer-te a visita no meu canto de sensualidades... segundo, kero dar-te os parabens pelo blog, k, embora seja um contexto diferente do meu, não é menos interessante!!E esta abordagem sobre o amor puro deixou-me apaixonada!!!!!
Eu axo k ou das pessoas k vieu um amor desses... de nao entender qual a sua razao, de dar um tiro no escuro para ver se acerta, de arriscar td... eu arriskei td... larguei td por uma relaçao k ng, a excepçao de nos, axava k desse certo... e hj ca estamos, juntos, felizes...
Vale tanto a pena correr esse risco... e, de facto, hj em dia as pessoas apaixonam-se por conveniencia, por diversao, pk tda a gente namora e nao kerem ficar atras, por interesse monetario...
Amor que é bonito e vale a pena? Há mt pouco...

Beijos sensuais, voltarei...
... deixo um convite para si...

2:36 da manhã  
Blogger Cacau said...

Este texto diz muito...

Obrigada pela escolha ;)

Beijo

10:09 da tarde  
Blogger sandra said...

É realmente inesgotável a inspiração que se busca na temática do amor, e aqui com uma nova abordagem. Ai amor que tanto moves e geras, vive sempre!

10:45 da manhã  
Blogger Lord of Erewhon said...

O problema desse MECo é ter as orelhas demasiado grandes! :)

3:52 da tarde  
Blogger Isabel José António said...

Caríssima Lua Obscura,

O universo criou-se por alguma razão: Para que os humanos se pudessem expressar na sua totalidade, nas suas máximas pontencialidades e interagirem uns com os outros.

O que se passa, como muito bem assinala MEC é que todos os "Crânios" ou "Cabeças Pensadoras" da Nossa praça ou do Mundo inteiro resolveram globalizar também o amor. Para tanto há que pôr toda a gente sem saber quem é e o que anda aqui a fazer.

O que resulta:

As pessoas não sabem, exactamente, o que querem e o que é o amor!

Vão "vivendo" o que podem, de acordo com o seu condicionamento particular e assim sendo quase ninguém sabe coisa nenhuma.

Resultado:

Amor a horas certas; amor, porque tem que ser; e amor, a maior parte das vezes, sem amor. Ou seja, uma autêntica ilusão colectiva, que isto da globalização não se aplica somente à economia.

Amar é entregar-se e SER
Ter alma, razão e coração
É olhar para o céu e VER
Que tens estendida a tua mão

É sentir o peito a arder
Por alguém que vibra em sintonia
É querer voar e saber aprender
Que a partilha é uma alegria

Amar é também saber e sentir
Que a vida é subir e descer
Não saber e querer sempre intuir
Que os olhos da alma são para VER

Amar é, numa mesma energia
Haver dois corpos com uma alma
E funcionar como uma alegoria
Ou quando sopra a brisa calma


Muitos parabéns pelo post.

Um abraço

José António

6:31 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

O amor é algo que cada um sente à sua forma e não há definições para o que é o AMOR! Cada um sabe da sua VIDA e do seu AMOR!!!!!

5:11 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Here are some links that I believe will be interested

9:57 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

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8:39 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

I like it! Good job. Go on.
»

3:08 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Your are Nice. And so is your site! Maybe you need some more pictures. Will return in the near future.
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11:17 da manhã  
Blogger Ruca said...

BRUTALLLLLLLLLLLLLISSIMOOO!!!! O MEC é um mister!!! Ele é k sabe...

11:35 da tarde  

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