"Nada a esconder" (Caché)

Realização:
Michael Haneke
Elenco:
Daniel Auteuil - Georges
Juliette Binoche - Anne
Sinopse:
Georges, jornalista, recebe vídeos, filmados clandestinamente a partir da rua, em que aparece com a família, assim como desenhos perturbadores e difíceis de interpretar, e não faz a menor ideia da identidade do remetente.
Pouco a pouco, o conteúdo das cassetes vai-se tornando cada vez mais pessoal, o que o leva a pensar que o autor o conhece há muito tempo.
Georges sente que uma ameaça paira sobre si e sobre a sua família mas, como não é explícita, a polícia recusa-se a ajudá-lo...
Críticas:
Jean-Luc Douin, Le Monde:
Este filme, magnífico e vertiginoso, é rico em reflexões sobre as feridas da infância que jamais sararão, a solidão face aos demónios interiores, os danos provocados pelos segredos num casal, a forma como a culpa corrói um indivíduo, a vingança de quem é rejeitado.
Patrick Fabre, Studio Magazine:
NADA A ESCONDER não é um filme em que seja preciso resolver um enigma, mas sim um estudo clínico e implacável das mentiras que são pequenas cobardias e que gangrenam as nossas vidas.
Comentário:
Quando vi "Funny Games" fiquei deveras perturbada, a mesma sensação causada por "La pianiste". Como se não bastasse "Caché" perturbou-me imenso também.
De facto o filme aborda aquelas marcas de alguns dos nossos actos, que quando praticados não parecem deixar danos, mas mais tarde voltam, como no eterno retorno. A luta com a culpa, a cobardia na abordagem da mesma, as mentiras desenvolvidas para tapar aquilo que nos envergonha, é no fundo a experiência que atinge o protagonista. Enfim, um retrato de situações tão ordinariamente humanas. Mas, para além disso, o filme deixa o seu toque indelével de manifesto político, na crítica aos aspectos negativos da colonização francesa, à xenofobia praticada (tão comuns em quase todos os colonizadores em relação aos colonizados).
E, tal como nos filmes que referi anteriormente, Haneke é um mestre a focar as debilidades humanas e os demónios que o Homem carrega. Assim como a deixar uma porta aberta sobre os mesmos, como a porta aberta no final do filme, em relação à qual Haneke responde:
"Cada um pode encontrar aí a sua solução. Mas a maioria das pessoas em Cannes não viam nada! E se se vê algo aí ainda há mais interpretações possíveis. Escrevi um diálogo para as personagens, antes da rodagem. Sei o que eles dizem, qual o sentido, mas não vou contá-lo."
Etiquetas: Universos de cinema
5 Comments:
Vejo que estamos em sintonia sobre este filme. :D
Magnífico! Haneke é magnífico e "Caché" um filme excelente, dos melhores deste ano.
Também já tinha escrito um pouco sobre o filme no blog.
Um beijinho, continua a escrever, gosto do teu blog.
Eu teria ficado muito feliz se o Haneke me contasse o diálogos dos personagens! :P É aquela mania de querer controlar as situações e conhecer os seus desfechos... Também tão ordinariamente humana! :)
É complicado lidar com a culpa, mas será que temos culpa? Não teremos antes responsabilidade? Repara como a palavra tão pesada se torna logo mais leve... Beijos guapa ;)
Obrigada Ursdens, também costumo visitar o teu blog, onde escreves, sem dúvida, críticas inteligentes.
D: Sim, responsabilidade é bem mais leve.
Bem, parece que a minha lista de filmes a ver continua a aumentar... mas isso é bom, pois gosto destes conselhos.
E este vale mesmo a pena ver!
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