quarta-feira, novembro 01, 2006

Cântico negro

José Régio

Nascimento: 1901 Vila do Conde
Morte: 1969
País: Portugal


Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

Comentários para quê?! Com a força destas palavras!!!

Etiquetas:

7 Comments:

Blogger AMMedeiros said...

Parabéns! Mas que recanto extraordinário! Gostei mesmo daqui e tive a sorte de que a minha visita coincidisse com o post do "Vem por aqui!" Poemas de Deus e do Diabo do nosso Régio! Um hino, um dos meus poemas de sempre, um favorito!...
Grata pela visita ao meu singelo recanto.
Um beijo

4:41 da tarde  
Blogger Nat aka Psipsina said...

Um dos meus favoritos, sem dúvida!

5:50 da tarde  
Blogger _Loot_ said...

O primeiro poema que li dele foi o "Ignoto Deo" e fiquei logo conquistado. O "Cântico Negro" é um dos meus preferidos dele, muito bom.

9:32 da tarde  
Blogger sandra said...

Sim, o Cântico Negro é inigualável, poderoso e nunca é demais relembrá-lo, homenageando-o e ao autor.
Mas, arrojada pergunto: porquê buscá-lo agora? Os caminhos que nos escolhem são muitas vezes indesejados, é certo. Há, contudo, vozes que nos guiam a bom porto. Basta ouvi-las, só escutá-las, ao menos isso.

5:37 da tarde  
Blogger Lua Obscura said...

Posso assegurar-te que as vozes das minhas duas estrelas, Andrómeda e Cassiopeia, são das poucas que ouço. E, para além de ouvir atentamente, muitas vezes, embora não pareça, sigo-as.
E devo dizer ainda que, a outra estrelinha, anda cá com umas ideias e está quase a convencer-me. LOL. Pergunta-lhe...

12:05 da manhã  
Blogger Hugo Alves said...

Régio, o meu Régio, ele que a par de Antero de Quental (com o soturno poema Nox) é dos poucos capazes de expressar o lado mais negro de cada um de nós. Bela escolha :-)

2:33 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Adorei!
Vou já devorar mais poemas dele...

R. Pinheiro

7:42 da tarde  

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